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O lugar da comunicação na saúde

radis_3.jpgEntrevista: Rogério Lannes e os 30 anos de Radis

Pergunte a qualquer pesquisador hoje sobre o papel do Radis no campo da saúde coletiva e ele terá a resposta na ponta da língua. Ao longo das últimas três décadas, o Radis vem fazendo jus às suas iniciais – Reunião, Análise e Difusão de Informação sobre Saúde –, transformando-se num programa permanente de saúde e comunicação.

A propósito dos 30 anos de Radis, no finalzinho do ano passado, o BoletIN convidou o jornalista Rogério Lannes para uma conversa. Repórter do programa há 25 anos, Rogério está há 12 coordenando o Radis, que nasceu em 1982, na Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), e hoje se legitimou como um espaço de jornalismo crítico e essencial.

radis_30_anos_jpg.jpgNesta entrevista, Rogério fala sobre o conceito ampliado de saúde, faz um retrato do programa e dá uma verdadeira aula de jornalismo. Para ele, os princípios inovadores pensados para a saúde são os mesmos que podem renovar a comunicação. Nessa interface, pode estar uma chave para a democracia. Confira.

BoletIN – O Radis trabalha com o conceito de saúde ampliado, ou seja, saúde não apenas como o inverso da doença, mas como qualidade de vida. Por que ainda é tão difícil falar de saúde por esse viés?
Rogério Lannes – Pelo conceito ampliado, em que todos atuam pra gerar sustentabilidade,  trabalho, cidades saudáveis, vida saudável, em que se valoriza o intersetorial,  saúde é uma estrutura menos precificável e menos centralizadora de poder. A ideia ampliada de saúde, em que ela é uma condição civilizatória, uma condição da existência cidadã, da democracia de uma sociedade, ela também descentraliza poder e descentraliza o sujeito das ações. Esse é um projeto que vai contra uma estrutura centrada no capital, no poder vertical, não distribuído. Então, isso gera uma dificuldade permanente. Porque saúde aqui não é vista como uma mercadoria. E do ponto de vista do mercado e do ponto de vista do poder, é necessário que saúde seja uma mercadoria e que tudo aquilo que entendemos sobre saúde também seja algo comercializável, precificável.

BoletIN – E qual o papel da Comunicação nesse contexto?
Rogério – Em comunicação, essa visão de saúde quantificável tem sido usada para referendar, para fortalecer, antigas estruturas. A comunicação, no país, é uma das condições de permanência, de conservação, desse estado de coisas. O Radis, na comunicação, representa uma alternativa, uma visão contra-hegemônica, que interessa a quase ninguém da comunicação de massa; interessa a muito poucos dentro da estrutura do estado porque ela é descentralizadora das estruturas de poder; e também interessa relativamente pouco à própria sociedade, que ainda é pouco sensível. Se você perguntar pras representações sociais, pra um cidadão comum, ele acha que comunicação é a transmissão da informação pronta na forma das entrevistas que ele lê, na forma das campanhas de governo de saúde.

radis_10.jpgBoletIN – Na edição de número 104, a Revista Radis trouxe uma excelente matéria de capa sobre “o SUS que não se vê”. Como o Radis faz para manter uma postura crítica sem ser confundido com o mero denuncismo da grande imprensa e, ao mesmo tempo, não se transformar em um veículo institucional, chapa-branca?
Rogério – O Radis é muito crítico mas isso não pode ser confundido com denúncia. Por exemplo, a denúncia que sai na comunicação de massa, na mídia comercial, não é uma denúncia em defesa do interesse público. É apenas uma denúncia para minar algo, uma denúncia de quem não defende o SUS e nem a saúde universal pra todos. Rola muito dinheiro no macroespaço da saúde, que passa por todos os negócios. Isso interessa à mídia e a outras esferas econômicas da sociedade. Mas esse papel do Radis na comunicação também foi mudando. Começou semiacadêmico, depois se tornou jornalístico mas ainda muito pautado na transmissão da informação, em levar um discurso 'para a sociedade' e em comunicar 'para a sociedade'. Ao longo da década de 90 e, principalmente, agora nos anos 2000, a gente começou a tensionar uma revista que, ainda que seja uma comunicação uniderecional já que ela chega pronta para a pessoa, mas a gente tensiona num instrumento mais dialógico. Nas pautas, na concepção, na linha editorial, nas pessoas entrevistadas, na presença equilibrada de falas, você tem cada vez mais o profissional, o usuário, as várias correntes. Então, tem a presença da voz do Estado, da Fiocruz e dos pesquisadores e acadêmicos, mas tem também muito presente as representações leigas, o conhecimento popular, os pontos de vista divergentes ali dentro.

BoletIN – Queria que você nos contasse um pouco a história do programa nesses 30 anos. É um projeto que surge em 1982, nos primeiros anos de abertura política, com a proposta de reunir, analisar e difundir informação sobre saúde – esse aliás é o significado da sigla.
Rogério – Esse nome, se a gente prestar atenção, parece muito com o que hoje a gente chama de Observatório. Os observatórios costumam ser pensados para reunir, para fazer uma discussão, uma análise, e depois difundir, publicizar essas reflexões sobre alguma coisa. No nosso caso, saúde. Surge dentro da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), do Departamento de Ciências Sociais, como uma iniciativa de educação continuada. Recebia gente de outros estados e dava cursos descentralizados Brasil afora. E depois dos cursos, os egressos passavam a receber as revistas do Radis, que eram a Súmula, Dados e Tema, inicialmente. A Súmula (até 2002) reunia notícias da imprensa num recorte do que a gente chamaria de conceito ampliado de saúde, que incluía toda essa discussão sobre qualidade de vida, trabalho etc, que não eram muito vistos na época, e tinha também análises sobre isso. A revista Dados (até 1996) tinha muita análise dos dados da saúde coletiva, a gente escolhia um tema só naquela revista e analisava os dados. E Tema (até 2002) trazia textos ou reprodução de debates sobre a saúde coletiva. Essas três revistas são lançadas em junho de 1982 e o perfil de quem escrevia era multiprofissional. Tinha gente de economia, sociologia… Eram textos que não eram estritamente acadêmicos, mas também não eram ainda jornalísticos. E eram feitos para acadêmicos.

radis_1.jpgBoletIN – A gente pode dizer que surgiu como uma forma de mobilização, de participação social?
Rogério – Nessa época, tinham outras iniciativas desse tipo que buscavam oferecer informação para profissionais, para a sociedade, se organizar e interferir na realidade e nas políticas públicas. O Radis surgiu dentro do Estado, mas fora do Estado tinham várias iniciativas com essa mesma perspectiva. Muita gente que voltou do exílio e tava buscando uma outra forma de conscientizar e de mobilizar as pessoas para a participação social. O Radis é um pouco um espelho dessa realidade que existia fora do Estado também. E segue nesse perfil até a 8ª Conferência Nacional de Saúde (1986), sendo muito influenciado pela 8ª Conferência e pela entrada do (Sérgio) Arouca na Fiocruz. Havia a ideia de a Reforma Sanitária ser realizada por mobilização social e de a comunicação ter importância na mobilização social e de o Radis poder se tornar um programa estratégico de interlocução com a sociedade. É aí que entram os jornalistas e o jornalismo no programa. Então, as três revistas e uma quarta que surgiu (o jornal tabloide Proposta) passaram a ter essa característica de deixar de ter uma interlocução apenas com a academia e de ‘falar para’ a sociedade. Mais tarde, muda esse perfil tradicional de mera difusão e de ‘falar para’. Então, além de repercutir tudo o que os sanitaristas da Reforma Sanitária defendiam, os resultados polêmicos e as outras teses da Reforma Sanitária, passamos a incluir, nas nossas publicações, a reportagem, a cobertura jornalística. E aí o grande salto foi quando passou a funcionar a Constituinte, nesse período do final de 1988, e o Radis começou a noticiar as reuniões, os debates, as mobilizações do Fórum e do Movimento da Saúde. Nossas publicações cumpriam o papel não só de difundir, de levar informações de como pensava a academia, mas também de retratar e promover o debate das teses entre os segmentos: sindicatos, usuários, alguns grupos. E também noticiar tudo isso a tempo de a sociedade interferir.

BoletIN – Três décadas depois do seu surgimento, tendo passado pelos anos Collor, Fernando Henrique Cardoso, pelos anos de Governo Lula e os atuais da presidenta Dilma Rousseff, o que mudou? Que novas abordagens são incorporadas pelo programa diante do novo contexto brasileiro?
Rogério – Os anos 1990 são atravessados por uma avalanche de veículos acadêmicos. Há um choque muito grande do liberalismo, com a implantação do SUS, já que o SUS foi implantado no auge do liberalismo, que é o oposto do Estado do Bem Estar Social do SUS. Mas aí a gente foi nessa corda bamba, nesse fio da navalha, obviamente tensionando o cumprimento da constituição e o debate. Chegando ao governo Lula, houve um momento de expectativas, de um retorno da Reforma Sanitária, da ‘reforma da Reforma’. Para o Radis, que tinha uma linha editorial muito respeitada e comprometida com isso, pareceu  que haveria um espaço muito favorável pra resgatar aqueles princípios da Constituição, da Reforma Sanitária, que haviam sido abandonados na década de 1990. O que a gente viu é que, da parte do Governo, houve um fortalecimento do SUS, mas não houve um resgate de todos os princípios; não houve, digamos, uma radicalidade na defesa do público. Os efeitos do neoliberalismo da década de 1990 ainda foram mantidos em relação à estruturação.

BoletIN – E o que isso significou para as publicações do Radis?
Rogério – Significou que a gente continuou tendo um papel necessário de colocar tudo em debate porque essa fricção não deixou de existir. E isso foi bom. Significou que até hoje, 30 anos depois, nunca houve uma situação, e nunca existirá, eu acredito, em que a gente se tornasse chapa-branca, porta-voz de um poder instalado, que está implementando tudo o que se deseja. Na verdade, é sempre incompleto. E o nosso papel continua muito útil.

radis_4.jpgBoletIN – Desde 2002, existe a Revista Radis. Queria que você falasse um pouco da revista hoje, que tem formato mensal, 80 mil exemplares e equipe própria constituída. Como se pauta a revista? Qual o seu alcance?
Rogério – Nos últimos 12 anos, a gente preparou essa transição. Primeiro, retomou a periodicidade mensal, fez um financiamento, constituiu uma equipe que já não existia mais. Foi um período em que a gente produziu tanto que, em 2002, concorrendo ao prêmio de 100 anos da OPAS, dos 7 prêmios, a Radis levou 5. E havia 40 concorrentes, veículos e jornalistas de todo o país tinham inscrito trabalhos. Então, a qualidade jornalística, de produto acabado, de apuração, do texto, é uma preocupação nossa o tempo todo. Não é que o programa seja alternativo também no seu fazer. Não, ele é de alta qualidade e é contra-hegemônico. Aí, quando a gente conseguiu retomar a periodicidade, a gente preparou esse salto que é pegar as características das revistas anteriores e conseguir fundir todas numa revista só que é a Revista Radis. Com uma característica de ser um pouco mais reflexiva, assumindo claramente que essa técnica jornalística de narrar, contar uma história e até divulgar algo mais complexo numa linguagem mais acessível, introduz um novo discurso e esse novo discurso é um discurso cheio de pensamentos, intencionalidades, não é uma coisa nem neutra nem indiferente nem sem tomar partido. Isso torna a revista um lugar de muitas falas.

radis_11.jpgBoletIN – Uma revista que fala sobre saúde mas também sobre comunicação.
Rogério – E sobre comunciação e saúde. Ou seja, temos trazido também as reflexões desse campo que foi se constituindo do final da década de 80 pra cá. Foi sendo produzida muita reflexão, monografia, dissertações, teses, grupos de trabalho em associações acadêmicas sobre a comunicação e a saúde e essas coisas se misturam. Não é como a comunicação pode ser usada a serviço da saúde e nem a saúde a serviço da comunicação. É realmente um campo de interface em que princípios inovadores pensados para a saúde foram sendo pensados por nós como princípios que também renovam a comunicação. Democratização e pulverização do lugar e do poder de fala; da presença dos discursos; da ruptura com o paradigma da transmissão da informação; da opção pelo paradigma da interação, da interlocução, da dialogicidade. Reforçando coisas assim: o Radis não é algo para crescer e ser absolutamente nacional. Esperamos ser um estímulo para que outras iniciativas de comunicação e de jornalismo existam mais para que outra forma de fazer saúde e de fazer comunicação exista também.

BoletIN – Sabemos que a defesa do SUS é uma das principais bandeiras do programa. Quais são as outras?
Rogério – Bom, a gente sai dos temas “saúde versus alguma coisa”, onde há visões de saúde se contrapondo, e segue junto com outras mudanças em outras áreas para temáticas transversais. Um exemplo: sustentabilidade. A sustentabilidade é transversal a todas as políticas e formas de desenvolvimento. Então, você faz um recorte em temas que dizem respeito tanto à gestão e administração do sistema quanto à questão política. Você trabalha em relação à participação social, aos direitos humanos. Isso em qualquer esfera da existência, em qualquer área de atuação do governo. Eu acho que essa transversalidade é uma característica do perfil do Radis hoje.

BoletIN – E como coordenador do programa, quais você diria que são os temas que mobilizam a sociedade quando se fala de saúde e comunicação?
Rogério – Lá no início, era muito importante que as pessoas soubessem o que estava sendo pesquisado. Até para que a gente pudesse fugir das notícias dos grandes jornais, que ficam macaqueando as pesquisas lá de fora que farão a diferença daqui a 15 anos. Então, a gente gostava muito de dizer o que vinha sendo pesquisado nas regiões descentralizadas do país, o que tava se descobrindo, a utilização de plantas, as soluções baratas, mil coisas desse tipo. A própria legitimação do investimento em pesquisa e em ciência foi a tônica dos anos 80, quando não havia ainda nem Ministério da Ciência e Tecnologia. Dos anos 90 pra cá, com o aparecimento da bioética, passou a interessar também a discussão sobre a pertinência das inovações, da transparência, do conhecimento, de se fazer escolhas, de tomar decisões sobre onde é que se põe o dinheiro em pesquisa. Essa passou a ser uma tônica também importante. Já teve também lá atrás, no início, a discussão sobre patentes ou não patentes, a autonomia nacional e tal. Hoje o internacionalismo não é uma propriedade do capital financeiro. O internacionalismo é na verdade uma bandeira, um pressuposto, dos utopistas e não dos bárbaros ao longo da história. Na área da informação, do pensamento, da pesquisa e da aplicação do desenvolvimento tecnológico, existe um entendimento a ser feito em nome do internacionalismo e dos benefícios de tudo isso. Então, você briga, por exemplo, para publicizar a existência das doenças negligenciadas que coincidentemente são doenças das populações negligenciadas e mais vulneráveis e coincidentemente dos trópicos. (O assunto foi capa da Revista Radis número 124, janeiro/2013).

radis_15.jpgBoletIN – Quem é o leitor de Radis hoje?
Rogério – O título de nosso editorial de janeiro é “O leitor em segundo lugar”. Que é um título para fazer ler. O leitor não é visto pelo Radis como o nosso queridinho, a quem a gente quer agradar. A gente quer que ele se sinta atraído e participe daquela comunicação ali mas junto conosco sirva a uma outra instância que está em primeiro lugar, que são justamente as populações mais vulneráveis. Nós estamos a serviço dos que são mais vulneráveis. O nosso leitor muito frequentemente tem conexões ou representa grupos mais vulneráveis. Mas a gente não o vê individualizado e sim como parte de um coletivo e a serviço desse coletivo. Então, se o nosso leitor está em segundo lugar, a gente está em terceiro; e os pesquisadores e acadêmicos estão em quarto e quinto; e o marketing institucional, em sexto; e a vontade do governo de plantão, em sétimo. E por aí vai. Então, tem a saúde da população em primeiro lugar que não deve se sujeitar a outros interesses.

BoletIN – Para terminar: o que ainda falta para que se cumpra à risca o princípio constitucional de Saúde como direito de todos e dever do Estado? E qual o papel da comunicação aí?
Rogério – Universalidade com equidade; serviço público com tudo público; o que é privado ou terceirizado ou precarizado numa rota de redução – ao contrário do que a gente tem hoje; uma diminuição da privatização; diminuição da terceirização e do repasse para o privado; uma diminuição da precarização. É ter tudo isso e com qualidade, mas que a qualidade seja a concretização dos princípios. Esses princípios da integralidade do ser humano sendo atendido e visto como sujeito, com todo o seu contexto e características, vale para a comunicação e para a saúde. Quando eu penso qualidade nessa promoção da saúde, tô pensando qualidade que é plenitude desses princípios da Reforma Sanitária e que foram pensados para o SUS na Constituição.

Para conhecer mais sobre o Radis, clique aqui.
 

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