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Por uma Saúde Integral, leia a edição 279 da Revista Radis com a entrevista de Roseni Pinheiro

Nos 35 anos do maior sistema público de saúde do mundo, Radis reafirma a importância de seus princípios fundamentais. Grupo de apoio a laringectomizados articula rede multiprofissional e demonstra que o princípio da integralidade é prática viva e fundamental no SUS.

Você sabia que existe um princípio do SUS que assegura a cada pessoa o direito de receber gratuitamente todo o cuidado necessário para seu bem-estar, em diferentes dimensões da saúde? Trata-se da integralidade da assistência ou, simplesmente, integralidade. Mas o que exatamente isso significa? Segundo o inciso 2 do artigo 7º da Lei Orgânica da Saúde (8.080/1990), que completou 35 anos em 2025, ela corresponde a um “conjunto articulado e contínuo de ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema”. Na prática, a integralidade orienta o cuidado ao ser humano em sua totalidade. Envolve não apenas tratar doenças, mas agir sobre os determinantes sociais, garantir vacinação, promover acompanhamento contínuo e articular diferentes níveis de assistência em saúde — da atenção básica aos serviços de alta complexidade.

No livro “O que é o SUS”, o médico e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Jairnilson Paim, reforça esse entendimento ao destacar que a integralidade se manifesta desde ações preventivas — como campanhas de vacinação e controle de vetores — até atividades de recuperação da saúde. “Esta diretriz do SUS, que busca compatibilizar ações preventivas e curativas, individuais e coletivas, é conhecida como integralidade da atenção”, escreve. Por abarcar dimensões que atravessam todo o sistema, a integralidade é vista por sanitaristas como um dos princípios mais complexos do SUS. “A integralidade como princípio é de uma grande complexidade. Eu diria, inclusive, que a complexidade é a cara do próprio SUS”, avalia à Radis Roseni Pinheiro, doutora em Saúde Coletiva e professora associada do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj).

Radis 279
Dezembro de 2025

Nos 35 anos do maior sistema público de saúde do mundo, Radis reafirma a importância de seus princípios fundamentais.


 Leia a entrevista com Roseni Pinheiro

Integralidade depende dos outros princípios

Para Roseni Pinheiro, existe uma interdependência entre os princípios do SUS: um não existe sem o outro, e eles só se efetivam juntos. Radis conversou com a enfermeira e pesquisadora do Laboratório de Pesquisas de Práticas de Integralidade em Saúde da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Lappis/Uerj), referência nos estudos sobre integralidade no SUS, para entender como esse princípio se efetiva na prática. Confira a seguir algumas de suas reflexões.

“É importante ressaltar que nenhum princípio foi integralmente cumprido. Os modelos das políticas nada mais são do que modelos ideais. Só que a gente sabe que os modelos ideais precisam de condições também ideais para serem materializados. E sabemos também que na prática, dificilmente tudo será realizado.

Então, olhando para a história, se a gente não adotar um olhar mais compreensivo, vamos ‘jogar a criança com a água do banho fora’. Vai dizer que nada foi feito. E a integralidade, como princípio, é extremamente complexa. Diria, inclusive, que a complexidade é a cara do SUS. O princípio da integralidade reclama a efetivação de outros princípios, como universalidade, equidade e participação. E falo da integralidade no cotidiano, porque estou me referindo ao princípio como prática, não como modelo idealizado de fazer uma política, mas como a integralidade se materializa no cotidiano. E ela não se materializa completamente todo o tempo, o tempo todo.”

“Podem me chamar otimista, mas eu vou continuar assim, porque vejo o SUS em todo o lugar que eu vou. Em tudo que é atendimento da minha família, por exemplo. Quando tem um medicamento, quando tem acesso a um transplante… então, dizer que não tem integralidade ou que é uma abstração? Penso que alguns colegas, ao dizerem isso, estão no mínimo desavisados ou têm outros interesses que não lhes permite olhar para as experiências. A Fiocruz mesmo, tem uma amostra do SUS gigantesca. Não tem integralidade ali? A gente não pode ser incoerente com a história.

Não dá para fazer a integralidade ou qualquer princípio do SUS com mágica. Não tem mágica. Agora, não se pode negar que a gente tem as bases. A Reforma Sanitária lutou para isso, a gente conseguiu aprovar uma Constituinte, a Constituição que está aí. Alguns colegas me perguntam: ‘Você ainda está com essa de integralidade?’ Respondo: ‘Vem cá, a Constituição acabou?’ A gente não pode ignorar a história, o processo, as experiências, as vivências. Quer prova maior do que a pandemia? Você acha que a gente superou a pandemia sem integralidade?”

“As práticas são construções sociais e, no caso da saúde, da integralidade, requerem diálogos cotidianos fundados em interações democráticas que quando reconhecidas pelos atores e atrizes do SUS, que são gestores, trabalhadores, usuários, ganham visibilidade, porque geram sentimento de pertencimento e de responsabilidade. Essa responsabilidade é pública, coletiva e individual.”

“A gente tem problemas estruturantes muito graves no funcionamento do SUS: o financiamento; o corporativismo; a desvalorização do trabalho em saúde; a inexistência da carreira do SUS; a postura política patrimonialista, clientelista, tutorial nos governos autoritários; enfim, todos os obstáculos já enfrentados desde sempre e que continuaremos a enfrentar. Nada está dado, nada está garantido. O que a gente precisa é aprender com as lições.”

“Sem participação, sem democracia, não tem SUS, não tem princípio, não tem saúde como direito humano.”

[Confira a entrevista completa no site de Radis]https://radis.ensp.fiocruz.br/todas-edicoes/radis-279/