{"id":2514,"date":"2008-04-24T03:00:00","date_gmt":"2008-04-24T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/lappis.org.br\/site\/2008\/04\/24\/pobre-mas-eficiente-temporao-fala-sobre-o-sus\/"},"modified":"2008-04-24T03:00:00","modified_gmt":"2008-04-24T06:00:00","slug":"pobre-mas-eficiente-temporao-fala-sobre-o-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lappis.org.br\/site\/pobre-mas-eficiente-temporao-fala-sobre-o-sus\/2514","title":{"rendered":"\u201cPobre, mas eficiente\u201d \u2013 Tempor\u00e3o fala sobre o SUS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"> \t<strong>Entrevista publicada na revista Carta Capital (16\/04). Por Leandro Fortes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> \t\u00a0<br \/> \t<strong>CartaCapital: Por que o SUS ainda \u00e9 encarado como um servi\u00e7o prec\u00e1rio e ca\u00f3tico no Brasil? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o:<\/strong><\/strong>H\u00e1 um subfinanciamento cr\u00f4nico do SUS. O Brasil gasta cerca de 1 real por dia por pessoa para manter o sistema p\u00fablico de sa\u00fade. Os Estados Unidos gastam o equivalente a 34 reais por dia. Isso faz com que esse sistema gigantesco s\u00f3 se viabilize por meio, basicamente, da sub-remunera\u00e7\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade, que ganham mal, e da sub-remunera\u00e7\u00e3o dos prestadores de servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> \t<strong>CC: O SUS \u00e9 visto apenas como um servi\u00e7o para pobres, n\u00e3o? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>Tem outra quest\u00e3o, de fundo ideol\u00f3gico. \u00c9 a dualidade da sa\u00fade como um direito universal, e o direito da sa\u00fade como um bem que se compra. A classe m\u00e9dia foi sendo expulsa do sistema. E n\u00e3o s\u00f3 a classe m\u00e9dia, mas o operariado organizado tamb\u00e9m, e h\u00e1 d\u00e9cadas. Um dos pontos mais valorizados dos acordos coletivos de trabalho \u00e9, justamente, o plano de sa\u00fade privado. E, nisso, temos alguns paradoxos. Os que idealizaram e defenderam a constru\u00e7\u00e3o do SUS n\u00e3o o utilizam. Os pr\u00f3prios ide\u00f3logos, os sanitaristas, os m\u00e9dicos, os enfermeiros, tamb\u00e9m n\u00e3o. Trabalham no SUS e usam planos privados. Os pol\u00edticos, os deputados, vereadores, senadores, governadores, a elite dirigente, enfim, n\u00e3o usa. Ent\u00e3o, h\u00e1 essa contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> \t<strong>CC: O senhor usa o SUS? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>Tenho um plano de sa\u00fade da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, de onde sou funcion\u00e1rio. Eu, eventualmente, uso os servi\u00e7os de colegas de turma. O m\u00e9dico tem essa rela\u00e7\u00e3o de colega para colega.<\/p>\n<p> \t<strong>CC: A classe m\u00e9dia n\u00e3o usa, ou n\u00e3o percebe que usa, mas fala mal do SUS. O sistema est\u00e1, definitivamente, estigmatizado? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>Normalmente, as piores avalia\u00e7\u00f5es do SUS s\u00e3o de quem n\u00e3o usa. Essas pessoas n\u00e3o lembram, ou n\u00e3o sabem, que o SUS tem uma abrang\u00eancia muito maior e presta servi\u00e7os que elas n\u00e3o percebem. Toda a vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria e o controle de alimentos, cosm\u00e9ticos e medicamentos s\u00e3o garantidos pelo SUS. A pol\u00edtica de vacina\u00e7\u00e3o, que todo mundo usa, \u00e9 p\u00fablica, assim como a pol\u00edtica de transplante de \u00f3rg\u00e3os. Os planos de sa\u00fade realizam, parcialmente, alguns transplantes, como de rim. O atendimento de urg\u00eancia e emerg\u00eancias nas grandes capitais \u00e9 feito nos prontos-socorros municipais. Quem sofre de doen\u00e7as cr\u00f4nicas ou raras e \u00e9 obrigado a tomar medica\u00e7\u00e3o muito cara, s\u00f3 pode recorrer ao SUS.<\/p>\n<p> \t<strong>CC: Qual \u00e9, ent\u00e3o, o grande m\u00e9rito do SUS? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>Partimos de um sistema centralizado, sem nenhum controle social, corrupto, totalmente privatizado e centrado num esquema de aten\u00e7\u00e3o hospitalar. Em 20 anos, constru\u00edmos um sistema radicalmente descentralizado, com controle social, com conselhos e confer\u00eancias, um modelo em que a participa\u00e7\u00e3o do setor p\u00fablico, particularmente na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, cresceu muito. Fala-se muito em reforma do Estado e o SUS, na pr\u00e1tica, \u00e9 uma profunda reforma do Estado. A partir de 1988, veio essa conquista de tratar a sa\u00fade como direito de cidadania, um direito de todos. Isso teve um impacto brutal, porque, da noite para o dia, 80 milh\u00f5es de brasileiros passaram a ter direito \u00e0 sa\u00fade constitucionalmente garantido.<\/p>\n<p> \t<strong>CC: O gigantismo do SUS \u00e9 um m\u00e9rito ou um problema? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>Houve uma amplia\u00e7\u00e3o do acesso ao servi\u00e7o que antes era restrito. Antes, as pessoas morriam sem atendimento.<\/p>\n<p> \t<strong>CC: N\u00e3o \u00e9 estranho a expans\u00e3o do SUS ter sido acompanhada de um crescimento igual, sen\u00e3o maior, dos planos privados? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>A sa\u00fade passou a ser uma mercadoria como qualquer outra. As seguradoras oferecem pacotes, produtos, tudo para atrair a classe m\u00e9dia. E, agora, mais do que nunca, porque 20 milh\u00f5es ascenderam das classes D e E para a classe C. Essas pessoas se v\u00eaem fascinadas pelo status de ter um plano de sa\u00fade, mesmo que seja uma coisa prec\u00e1ria. Elas s\u00f3 v\u00e3o perceber o problema quando precisarem ser atendidas e descobrirem que, muitas vezes, o tal plano n\u00e3o funciona de verdade. O SUS, embora p\u00fablico, n\u00e3o \u00e9 estatal. O setor privado, sobretudo o filantr\u00f3pico, \u00e9 respons\u00e1vel por 50% das interna\u00e7\u00f5es e atendimentos de sa\u00fade. Mas h\u00e1 um tratamento de dupla porta de entrada: enfermaria para os pacientes do SUS, quartos para os pacientes de planos privados.<\/p>\n<p> \t<strong>CC: \u00c9 uma regra geral? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre a percep\u00e7\u00e3o do SUS na maioria dos munic\u00edpios de pequeno e m\u00e9dio porte, onde a satisfa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao sistema \u00e9 alta, e nas periferias das grandes cidades, onde h\u00e1 filas e demora nos atendimentos. O munic\u00edpio do Rio de Janeiro \u00e9 um caso cl\u00e1ssico. L\u00e1, a rede de atendimento prim\u00e1rio \u00e9 p\u00e9ssima, embora haja grandes centros de excel\u00eancia m\u00e9dica. Temos de mudar o modelo no qual toda oferta de atendimento \u00e9 centrada nos prontos-socorros dos hospitais. Nisso, inclusive, o Rio \u00e9 a s\u00edntese do mau exemplo. O sistema l\u00e1 foi montado para receber toda a press\u00e3o pelas urg\u00eancias dos hospitais.<\/p>\n<p> \t<strong>CC: Por que o Rio de Janeiro gera tantas crises da sa\u00fade? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>Por conta de quest\u00f5es estruturais e conjunturais. Por ter sido capital do Pa\u00eds, herdou a maior rede p\u00fablica de hospitais do Brasil. O carioca est\u00e1 acostumado a usar hospital para resolver problemas de sa\u00fade. O Rio \u00e9 a capital do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, da Secretaria de Sa\u00fade estadual e da municipal. Cada esfera dessas tem uma rede gigantesca de hospitais e servi\u00e7os, mas nunca trabalharam de maneira integrada e articulada.<\/p>\n<p> \t<strong>CC: N\u00e3o se integram apenas por quest\u00f5es pol\u00edticas? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>Tem quest\u00f5es hist\u00f3ricas e conjunturais. Temos essa dificuldade de concep\u00e7\u00e3o por parte da prefeitura do que seja atendimento \u00e0 sa\u00fade. Em 2001, eu era subsecret\u00e1rio do S\u00e9rgio Arouca (sanitarista falecido em 2003, um dos idealizadores do SUS), no in\u00edcio do primeiro governo Cesar Maia na prefeitura, e n\u00f3s sa\u00edmos depois de cinco meses, exatamente por causa dessa discord\u00e2ncia. (Cesar Maia exonerou Arouca, secret\u00e1rio municipal de Sa\u00fade, por e-mail.)<\/p>\n<p> \t<strong>CC: O prefeito do Rio disse que o senhor foi demitido porque era pregui\u00e7oso e incompetente. <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>Ele est\u00e1 usando os mesmos termos que usou contra o S\u00e9rgio Arouca, na \u00e9poca. Ali\u00e1s, acrescentou que o Arouca era alco\u00f3latra. \u00c9 uma tentativa de me ofender, mas eu n\u00e3o vou entrar nessa briga. O fato \u00e9 que n\u00f3s oficiamos o prefeito Cesar Maia, em 2001, in\u00fameras vezes, sobre o risco de uma epidemia de dengue no Rio, por conta da falta de medidas de preven\u00e7\u00e3o. Ele desconsiderou todas as medidas propostas e, em 2002, tivemos a maior epidemia da hist\u00f3ria do Rio de Janeiro. Essa epidemia de agora, perto daquela, \u00e9 pinto. Aquela foi gigantesca, com mais de 200 mil casos, quase 100 mortos. Entregamos ao prefeito um projeto, em 2001, de implantar 650 equipes de atendimento de sa\u00fade para mudar radicalmente a organiza\u00e7\u00e3o do sistema. O projeto foi engavetado.<\/p>\n<p> \t<strong>CC: E agora, como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>JGT:<\/strong><\/strong>Quando a gente entrou na crise, de janeiro para c\u00e1, come\u00e7ou a morrer menos gente. A dengue est\u00e1 relacionada, diretamente, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida, moradia e saneamento. Essas quest\u00f5es est\u00e3o distantes da governabilidade das autoridades de sa\u00fade. Isso envolve oferta regular de \u00e1gua de qualidade, esgoto, recolhimento regular de lixo, obras de infra-estrutura para garantir qualidade ambiental. E tem a dimens\u00e3o assistencial. \u00c9 preciso atender as pessoas e reduzir ao m\u00ednimo os \u00f3bitos. A\u00ed, uma rede de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria muito bem organizada \u00e9 crucial. Porque, quanto mais precoce \u00e9 o diagn\u00f3stico e mais cedo se iniciar o tratamento, melhores ser\u00e3o os resultados. No Rio, houve alto n\u00edvel de casos e \u00f3bitos porque as pessoas foram para a fila do pronto-socorro esperar horas por um atendimento de m\u00e1 qualidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p style=\"text-align: center;\"> \t<strong>Entrevista publicada na revista Carta Capital (16\/04). Por Leandro Fortes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> \t\u00a0<br \/> \t<strong>CartaCapital: Por que o SUS ainda \u00e9 encarado como um servi\u00e7o prec\u00e1rio e ca\u00f3tico no Brasil? <\/strong><br \/> \t<strong><strong>Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o:<\/strong><\/strong>H\u00e1 um subfinanciamento cr\u00f4nico do SUS. O Brasil gasta cerca de 1 real por dia por pessoa para manter o sistema p\u00fablico de sa\u00fade. Os Estados Unidos gastam o equivalente a 34 reais por dia. 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Por Leandro Fortes  \u00a0 CartaCapital: Por que o SUS ainda \u00e9 encarado como um servi\u00e7o prec\u00e1rio e ca\u00f3tico no Brasil?  Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o:H\u00e1 um subfinanciamento cr\u00f4nico do SUS. O Brasil gasta cerca de 1 real por dia por pessoa para manter o sistema p\u00fablico de sa\u00fade. Os Estados Unidos gastam o equivalente a 34 reais por dia. Isso faz com que esse sistema gigantesco s\u00f3 se viabilize por meio, basicamente, da sub-remunera\u00e7\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade, que ganham mal, e da sub-remunera\u00e7\u00e3o dos prestadores de servi\u00e7os. 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